Produção e Desenvolvimento do Novo Testamento

Prefácio e Introdução

Prefácio

A crença de que o Segundo Advento (a Parousia) ainda é futura não pode ser reconciliada com qualquer interpretação razoável do Novo Testamento como uma mensagem e registro divinamente inspirados. O erro não é menor porque por séculos não foi detectado. A verdade, que mais cedo ou mais tarde substituirá a crença comum, fazia parte da fé mais antiga da Igreja cristã. A fé mais antiga da igreja cristã associa a destruição de Jerusalém, o encerramento da dispensação judaica, e o retorno pessoal de Cristo no ar, como eventos que certamente aconteceriam ao mesmo tempo. Jesus e seus apóstolos acreditaram e ensinaram que o segundo advento ocorreria durante a vida de alguns que tinham sido Seus contemporâneos terrestres. Confiante de que os fundadores do Cristianismo não foram enganados nem estavam errados, aceitamos com alegria pela autoridade deles o fato de que o Cristo já veio pela segunda vez. O autor está sob as mais profundas obrigações com a obra “The Parousia” do Dr. James Stuart Russell.1 Paulo previu que, na “Parousia” ou Segunda Vinda do Senhor Jesus, os santos que permanecessem na terra até aquele momento seriam levados diretamente ao Céu. O apóstolo também declarou que essa afirmação não era mera opinião pessoal, mas fundamentava-se em autoridade divina – o fato havia sido definitivamente revelado a ele por Cristo. “Isto dizemos a vocês pela palavra do Senhor: que nós (necessariamente incluindo pelo menos alguns daqueles a quem ele estava escrevendo) que estivermos vivos e permanecermos até a vinda do Senhor… seremos arrebatados nas nuvens para encontrar o Senhor nos ares; e assim estaremos para sempre com o Senhor.” (1 Tessalonicenses 4:15, 17) Jesus também declarou expressamente que, antes que a geração de homens à qual Ele falava tivesse passado, o Filho do Homem enviaria Seus anjos com o som de uma grande trombeta, e eles reuniriam Seus eleitos dos quatro ventos, de uma extremidade do céu à outra. Naquele dia, dois homens, por exemplo, estariam trabalhando no campo, ou duas mulheres estariam moendo no moinho: um seria levado, e outro deixado. (Mateus 24:31, 34, 40, 41) De forma semelhante, quando os apóstolos do Senhor ficaram entristecidos com o anúncio de que Ele logo os deixaria, Ele os confortou com a certeza de que Sua presença visível seria retirada apenas por um curto período. Quando tivesse preparado plenamente um lar para eles na casa do Pai, com muitas moradas, Ele mesmo voltaria para buscá-los da terra: “E se eu for e vos preparar um lugar, voltarei e vos receberei para Mim mesmo, para que onde Eu estiver, vós estejais também. (João 14:3) Assumimos, como James Stuart Russell propôs, que esse arrebatamento de crentes vigilantes e consagrados ao Céu, no momento da Parousia em 70 d.C., envolveu necessariamente um grande milagre físico, com a transformação de seus corpos terrestres em corpos espirituais, e por consequência, seu desaparecimento repentino e total da cena terrestre. Isso, em si mesmo, seria tão possível e crível quanto a translação de Enoque e Elias (Gênesis 5:24; Hebreus 11:5; 2 Reis 2:11) e a ascensão do Senhor Jesus (Marcos 16:19; Lucas 24:51; Atos 1:9). Apenas os cristãos vigilantes e consagrados (correspondendo às virgens prudentes da parábola, Mateus 25) seriam retirados do mundo naquele momento. Esses crentes que sobreviveram até a vinda do Senhor, foram totalmente isentos do estado intermediário no Hades ou Paraíso, no qual o povo de Deus havia passado anteriormente na morte. (Lucas 16:22; 23:43; João 3:13; Atos 2:34; Hebreus 11:39-40) Num momento, num piscar de olhos, uma grande transformação os alcançou. (1 Coríntios 15:51-53; 2 Coríntios 5:2-4; Filipenses 3:21) E então, sem intervalo ou demora, passaram com Jesus para compartilhar a glória e a bem-aventurança do Seu Reino celestial. A igreja primitiva era composta principalmente por mulheres, escravos e pobres. Em uma época de tumulto social e político feroz, quando a vida humana era considerada de pouco valor, o fato de que, em todas as partes do mundo conhecido, alguns membros de uma seita religiosa desprezada e odiada desaparecessem repentinamente da cena terrestre poderia facilmente escapar do registro de historiadores seculares. Além disso, a lacuna que ocorre nos registros da história da Igreja nesse ponto explica o silêncio a respeito desse evento.

O fato da segunda vinda de Cristo ter ocorrido no passado nos oferece uma prova segura da autenticidade e da datação inicial dos livros do Novo Testamento. É amplamente aceito que, após a destruição de Jerusalém, a crença na iminência do retorno de Cristo à terra começou a se tornar obsoleta. É pelo menos certo que as muitas e variadas declarações encontradas nos evangelhos e epístolas, que preveem que Seu retorno ocorreria dentro do período de vida de Seus contemporâneos, têm sido persistentemente ignoradas pela igreja desde então até o presente. Essas predições contrariam completamente as crenças sobre o assunto que prevaleceram desde a destruição de Jerusalém. Portanto, elas não podem ter sido inventadas por uma geração posterior. E, se as predições são genuínas e autênticas, os livros nos quais elas estão contidas também devem ser genuínos e autênticos. Portanto, a questão de saber quando os documentos do novo testamento foram escritos é importante, pois influencia a interpretação do livro. Uma exposição correta depende, em grande medida, do conhecimento das condições existentes na época em que foi escrito; ou seja, do verdadeiro ponto na história ocupado pelo autor e por aqueles a quem ele originalmente se dirigia. Não importa se o livro fosse apenas uma epístola, determinar a época, o contexto histórico e o público em que foi escrito é de extrema importância para a compreensão de seu significado.

Concluimos o assunto com esta observação: Se for admitido que o arrebatamento não exigiu uma remoção absoluta e universal de todo o corpo dos fiéis (pois é manifesto que existe uma clara distinção entre vigilante e não-vigilante, pronto e não-pronto, e que muitos podem ser excluídos do reino como aqueles que entraram), o cristianismo foi perpetuado por meios de “crentes de segunda categoria.” Portanto, “não há advertência mais necessária ao estudante das ‘Origens Cristãs’ do que tomar cuidado com a Tradição. É notoriamente uma testemunha falsa e deve sempre ser vista com suspeita. Nunca sua influência foi mais funesta do que no cristianismo; e nada limparia tanto a atmosfera quanto sua exclusão total da corte. Da morte dos apóstolos a história autêntica não sabe absolutamente nada, e muito pouco de sua vida, mas a Tradição sabe tudo. Ele sabe como, quando e onde São Paulo e São Pedro pereceram; como os doze dividiram o globo como suas dioceses; como e onde a maioria deles sofreu o martírio. É especialmente preciso em seus relatos sobre o apóstolo João e a Virgem Maria, a assunção do último e a extrema velhice do primeiro, que sobreviveu ao banho de óleo fervente e levantou o chão acima dele quando colocado em seu túmulo! Às vezes somos tentados a pensar que os teólogos e os críticos bíblicos dão mais atenção ao balbucio mais fraco, mais fútil e infantil da Tradição do que ao testemunho expresso e autêntico da revelação divina.”2

Introdução

Estudar sobre a produção e desenvolvimento dos documentos do Novo Testamento não é uma tarefa fácil. Essa disciplina envolve explorar os contextos em que os textos foram escritos, as motivações dos autores, e como esses escritos foram transmitidos e organizados ao longo do tempo. A teoria que assumimos aqui, é chamada de Canonização Apostólica, e a obra principal que moldou nossa abordagem é o “New Testament Canon Complete by A.D. 70.” escrito por Edward Stevens. Afirmamos que todos os 27 livros do nosso Novo Testamento foram escritos, coletados e certificados como autoritativos (isto é, canônicos) pelos apóstolos antes de sua partida da cena terrena. Essa não é uma teoria nova, mas é bastante conservadora e merece uma consideração muito mais ampla pela comunidade teológica evangélica.

Em primeiro lugar, precisamos definir o que é canonicidade e sua base bíblica. Em segundo lugar, analisaremos os critérios usados para testar a canonicidade. Observaremos que as Escrituras vêm de homens inspirados movidos pelo Espírito Santo, e não de líderes eclesiásticos não inspirados. Os apóstolos tinham consciência de sua inspiração dada por Cristo para produzir documentos autoritativos. Por fim, examinamos como os escritos do Novo Testamento foram produzidos, copiados, distribuídos, coletados e certificados pelos apóstolos e seus colaboradores inspirados. Veremos como os apóstolos, especialmente Pedro, desempenharam um papel crucial tanto na produção quanto na validação dos documentos do Novo Testamento; como Deus confirmou esses escritos como canônicos por meio de sua preservação providencial.

A Igreja não produziu as escrituras ou definiu o cânon, seu papel foi reconhecer e preservar quais livros já haviam sido autorizados e transmitidos pelos apóstolos. Afirmamos que somente os apóstolos tinham a inspiração e a autoridade para não apenas escrever as Escrituras inspiradas, mas também para decidir infalivelmente quais livros eram autoritativos. Nenhuma geração posterior de líderes eclesiásticos ou comunidades possuíam essa inspiração, orientação direta do Espírito Santo (o Paracleto), ou a comissão e autorização direta de Cristo para produzir o cânon. Além disso, esses líderes ou comunidades posteriores não eram testemunhas oculares de Cristo ressuscitado. Isso significa que os únicos cristãos qualificados para estabelecer os limites do cânon do Novo Testamento foram os próprios apóstolos que escreveram os livros inspirados. Isso é o que chamamos de Canonização Apostólica.

Não estamos dizendo que todas as igrejas em todo o império romano possuíam cópias de todos os 27 livros do Novo Testamento antes de 70 d.C., nem que a maioria das igrejas as possuía. Isso não é necessário para a tese da Canonização Apostólica. Tudo o que é necessário para essa teoria é que os Apóstolos e a igreja em Jerusalém tivessem cópias de todos os documentos que formariam nosso novo testamento, e que eles dessem sua aprovação antes de deixarem a cena terrena. Isso parece ser indicado pelas declarações de Pedro e Paulo que analisaremos.

Essa ideia foi rotulada como Canonização Apostólica – uma abordagem muito conservadora para o Cânon do Novo Testamento, que precisa e merece ampla consideração pela comunidade teológica evangélica. Essa teoria foi amplamente argumentada no livro de Ernest L. Martin de 1994, Restoring the Original Bible. Utilizando evidências contextuais internas e dados históricos externos, Martin reconstrói o desenvolvimento do cânon do Novo Testamento. Sua teoria interpreta bem os dados até chegar aos escritos joaninos, onde quase todas as teorias de canonização enfrentam dificuldades. Martin não é uma exceção. Argumentaremos que todos os escritos de João foram concluídos antes da destruição de Jerusalém em 70 d.C. Faremos esse caso não apenas com base em evidências contextuais internas, mas também em evidências bíblicas e históricas que sugerem que o apóstolo João foi arrebatado ao céu em 70 d.C. Se ele foi levado ao céu em 70 d.C., então seus escritos precisaram ser concluídos antes de sua retirada da cena terrestre.

Essa extensão particular da teoria de Martin é mais consistente e convincente do que a original. Baseia-se em seus pressupostos fundamentais, mas vai além do que ele propôs. Além disso, é ainda mais conservadora e bíblica do que a teoria de Martin. Todos os cristãos evangélicos precisam considerá-la seriamente. Com essa reconstrução histórica como pano de fundo, o Novo Testamento ganha um significado mais rico e eleva os estudos de seu contexto a um novo nível. Ter um cânon absolutamente autoritativo e confiável depende da revelação inspirada e milagrosa de Deus para produzi-lo e de sua preservação milagrosa para mantê-lo puro e acessível a nós. Os cristãos evangélicos afirmam que os apóstolos e profetas do primeiro século eram inspirados e que seus escritos eram canônicos. No entanto, por alguma razão, nem todos damos o próximo passo lógico para concluir que somente aqueles que foram inspirados também são os únicos que podem decidir infalivelmente quais livros são canônicos. Temos caído na ideia romanista de que líderes eclesiásticos não inspirados de séculos posteriores são de alguma forma autorizados a tomar essas decisões. Isso ocorre porque não percebemos que os apóstolos completaram a coleta e certificação do cânon antes de saírem da cena terrena. Acreditamos que homens não inspirados não podem produzir e definir o cânon. Somente aqueles homens inspirados que tiveram a autoridade para escrever os livros poderiam ter a autoridade e a ajuda do Paracleto para coletá-los e colocarem seu selo de autenticidade e autoridade neles.

Examinaremos cada uma das três etapas envolvidas na produção do cânon do Novo Testamento (escrita, coleta e certificação). O desafio da teoria da Canonização Apostólica é demonstrar que todas essas etapas ocorreram durante a vida dos apóstolos, antes de deixarem a cena terrena. Essa teoria confirma a interpretação preterista que afirma que todos os documentos do Novo Tetamento foram escritos antes de 70 d.C.

Notas:

  1. The Parousia: A Critical Inquiry into the New Testament Doctrine of Our Lord Christ’s Second Coming. LONDON, T. FISHER UNWIN – 26 PATERNOSTER SQUARE – 1887 – Escrito por James Stuart Russell, M.A., D.Div., (1816-1895).

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  2. Rapture of The Saints – James Stuart Russell.

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