Produção e Desenvolvimento do Novo Testamento

Parte 1

O Cânon do Novo Testamento

Definindo Canonicidade

O que é canonicidade? Trata-se, simplesmente, da lista de escritos sagrados considerados pelos cristãos como inspirados, inerrantes e absolutamente autoritativos em todas as questões de doutrina e prática. Embora o Novo Testamento não utilize a palavra cânon ou canônico em referência ao seu conteúdo ou à coleção de livros do Antigo Testamento, os conceitos de canonicidade e canonização estão presentes no Novo Testamento. Neste artigo, examinaremos alguns contextos do Novo Testamento onde esses conceitos são mencionados de forma implícita ou explícita.

A Bíblia utiliza certas palavras e expressões que implicam canonicidade, como: inspiração, escritura, autoridade de ligar e desligar, autoridade absoluta, revelação direta, porta-vozes de Deus, “assim diz o Senhor”, “escreveu para vocês”, “está escrito.” Moisés foi o primeiro a aludir à ideia de autoridade canônica (Deuteronômio 18:15-19), mas encontramos outros exemplos dessa ideia ao longo dos períodos Patriarcal e Mosaico. Trata-se da ideia de revelação direta de Deus por meio de seus porta-vozes inspirados (profetas). Homens movidos pelo Espírito Santo falaram (e escreveram) da parte de Deus. (2 Pedro 1:21) A Canonização Apostólica é uma abordagem muito conservadora para a canonização do Novo Testamento. Ela oferece aos protestantes e evangélicos uma alternativa bíblica ao dogma católico romano da Sucessão Apostólica, além de uma resposta consistente e conservadora aos críticos liberais do cânon do Novo Testamento. Essa teoria de canonização necessita e merece uma consideração ampla por parte da comunidade teológica evangélica.

Base Autorizada para o Cânon do Novo Testamento

O processo de criação de um cânon das Escrituras envolve três etapas principais: escrever, coletar e certificar, e essas etapas estão inseparavelmente interligadas. Os doze apóstolos foram comissionados por Cristo para realizar todas as três. Em João 12–16, Jesus previu a obra do Paráclito para ajudá-los a completar essa tarefa. Esse trabalho canônico não foi deixado para gerações posteriores. Permitir que gerações futuras coletem e certifiquem o cânon seria retirar dos apóstolos inspirados a obra que Cristo os encarregou de realizar e colocá-la nas mãos de homens não inspirados, incapazes e não autorizados a fazê-lo. Os apóstolos, inspirados e capacitados, eram os únicos autorizados e habilitados para executar essas tarefas. Esse entendimento refuta a ideia da Sucessão Apostólica proposta pela Igreja Católica Romana. A autoridade apostólica não foi transmitida a líderes eclesiásticos de gerações posteriores, mas cessou com os apóstolos, que receberam diretamente de Cristo a responsabilidade de revelar, falar, escrever e certificar a Palavra autoritativa de Deus.

Processo Divino de Autoridade

O processo pelo qual a Palavra de Deus foi revelada, falada, escrita, confirmada e entregue “uma vez por todas aos santos” foi divinamente orquestrado. Primeiro, Deus revelou Sua Palavra aos patriarcas e profetas inspirados. Depois, ela foi escrita e transmitida às gerações seguintes. Essa cadeia de autoridade começou com Moisés, culminou em Jesus (“o profeta como Moisés”, conforme Deuteronômio 18:15-19) e foi confiada aos apóstolos. Jesus declarou ter recebido “toda autoridade” no céu e na terra (Mateus 28:18-20). Ele comissionou os apóstolos a fazer discípulos de todas as nações, ensinando-os a observar tudo o que Ele lhes havia ordenado. Por meio do Paráclito, Jesus garantiu que os apóstolos recebessem toda a verdade e lembrassem tudo o que Ele lhes ensinou, resultando na completa revelação de Sua Palavra antes de a Era Judaica terminar em 70 d.C.

Autoridade Apostólica e o Cânon

Cristo deu a Pedro as “chaves do Reino” (Mateus 16:19), incluindo a autoridade para “ligar e desligar” assuntos, o que se estendia à certificação das Escrituras inspiradas. Contudo, essa autoridade não foi passada a sucessores. A obra do Espírito Santo capacitou os apóstolos a cumprir sua missão, resultando no fechamento do cânon antes de 70 d.C., quando Jerusalém e o templo foram destruídos. As epístolas apostólicas e os evangelhos foram escritos por autores inspirados, alguns dos quais não eram apóstolos, mas colaboradores diretamente supervisionados por eles (por exemplo, Marcos e Lucas). Assim, o Novo Testamento foi compilado por aqueles que foram diretamente comissionados e capacitados por Cristo.

Erros da Sucessão Apostólica

A Igreja Católica Romana errou ao assumir que a autoridade apostólica foi sucessivamente transmitida a cada novo bispo. A autoridade para escrever, coletar e certificar o cânon foi exclusiva dos apóstolos e daqueles diretamente capacitados por eles. Após o falecimento dos apóstolos, não houve mais revelações inspiradas, e o cânon foi fechado. Os protestantes, ao rejeitarem a ideia de Sucessão Apostólica, reafirmam a suficiência do cânon inspirado pelos apóstolos. Essa posição continua a desafiar os erros históricos e doutrinários, reforçando os princípios da Reforma e da Restauração.

Testes de Canonicidade

Alguns dos princípios que o povo de Deus sempre utilizou para determinar se uma palavra falada ou escrita é inspirada e autoritativa são os seguintes: Está ligada a Jesus, aos apóstolos ou aos profetas inspirados? Segue a cadeia de autoridade que as Escrituras nos fornecem? Está em harmonia com o restante das Escrituras inspiradas? É consistente com o plano geral de redenção revelado nas Escrituras? Declara e demonstra evidências de ser uma revelação inspirada por Deus?

Um dos testes de canonicidade baseia-se na ideia de autoridade. Escritos que afirmam inspiração e apresentam evidências de serem revelações de Deus para a humanidade podem ser considerados canônicos se atenderem a todos os outros critérios de canonicidade. Isso é especialmente válido se o livro tiver uma conexão histórica clara com um apóstolo ou profeta inspirado. Outro método de teste para canonicidade baseia-se na regra hermenêutica da Analogia da Fé (Analogia Fidei). Se um livro contribui para o sistema geral da fé (plano de redenção) encontrado ao longo da Bíblia e está em harmonia com ele, então é um candidato para inclusão. Mas se contradiz as Escrituras inspiradas conhecidas ou está desalinhado com o plano geral de redenção, deve ser excluído.

Os Apóstolos Estavam Cientes de Sua Inspiração e Autoridade

Os apóstolos sabiam que possuíam autoridade para “ligar e desligar” e a reivindicaram em seus ensinamentos. Aqui estão algumas palavras e frases utilizadas por Pedro e Paulo que demonstram que eles compreendiam a inspiração e autoridade de suas palavras faladas e escritas: “se você não reconhece minha autoridade, então você também não é reconhecido”, “homens aprovados”, “decretos”, “ligar e desligar”, “certificado”, “validado”, “comissionado”, “dirigido”, “enviado por Cristo”, “Paulo e Barnabé designados pelo Espírito Santo para essa missão”, “nós, os apóstolos”, “homens movidos pelo Espírito Santo falaram da parte de Deus”, e “Deus falou em tempos diversos e de várias formas, mas nestes últimos dias falou por meio de Seu Filho, do qual somos porta-vozes.”

Paulo não hesitou em declarar todo o propósito de Deus. Ele ensinou o evangelho completo, tanto de forma oral quanto por meio de suas epístolas. (Atos 20:27) Os cristãos deveriam manter a tradição transmitida por palavra falada ou por epístola escrita. (2 Tessalonicenses 2:15) O mistério foi revelado a Paulo por meio de revelação direta, que ele registrou por escrito, permitindo que seus leitores compreendessem o mistério. (Efésios 3:3-4) Pedro atesta a autoridade canônica de Paulo e seus escritos, colocando-os no mesmo nível das demais Escrituras. Ele tinha uma coleção completa de “todas as cartas de Paulo” e as equiparava às “demais Escrituras.” (2 Pedro 3:15-16) Paulo reivindica o mesmo tipo de revelação direta (inspiração) e comissão direta de Cristo para seus ensinamentos (autoridade apostólica). (Gálatas 1:1, 11-12; Veja também Efésios 3:1-10; 2 Timóteo 1:11; 1 Coríntios 11:23; 11:2; 15:3; e Tito 1:3) Paulo afirma que o que escreveu é mandamento do Senhor. (1 Coríntios 14:37; veja também 2 Coríntios 2:9; Colossenses 4:16; e 1 Tessalonicenses 5:27) Os apóstolos e os anciãos em Jerusalém exerceram a autoridade dada por Cristo para resolver a controvérsia sobre circuncisão e observância da lei pelos gentios. Eles escreveram um documento decretal (dogmata, no grego), que foi entregue a todas as igrejas. Esse documento escrito foi considerado vinculativo e absolutamente autoritativo, demonstrando uma atividade e autoridade canônicas. (Atos 15:20-23, 30; 16:4; e 21:25) Paulo reconheceu a autoridade apostólica de Pedro e sua comissão direta por Cristo para pregar o evangelho aos judeus, enquanto reivindicava sua própria autoridade apostólica e comissão para pregar aos gentios. (Gálatas 2:7-9)

Produção dos Manuscritos do Novo Testamento

Uma premissa fundamental para a teoria da Canonização Apostólica é a datação anterior ao ano 70 d.C., de todos os documentos do Novo Testamento. Sem essa base, essa teoria de canonização não pode ser sustentada. Assim, o primeiro passo é apresentar evidências significativas e argumentos que suportem a escrita de todos os documentos do Novo Testamento antes de 70 d.C.

Dr. John AT Robinson, um teólogo amplamente conhecido como um teólogo “liberal”, chocou o mundo acadêmico cristão ao sugerir que todos os documentos do Novo Testamento foram escritos antes de 70 d.C. Uma posição notavelmente conservadora, uma vez que a maioria dos estudiosos liberais datam grande parte do Novo Testamento após 70 d.C. Ele diz que começou a perceber que nenhum dos livros do Novo Testamento mencionou a destruição de Jerusalém como um evento passado. Ele chama a destruição de Jerusalém, “o evento único mais datável e climático”, e enfatiza constantemente o ponto de que um evento tão importante não poderia ter sido ignorado pelos escritores do Novo Testamento se fosse passado quando eles escreveram. Em seu livro, Redating the New Testament, ele diz: “Um dos fatos mais estranhos sobre o Novo Testamento é que… a queda de Jerusalém em 70 d.C., … nunca é mencionada como um fato passado.”1 Como poderia qualquer escritor do Novo Testamento depois de 70 d.C. deixar de comentar sobre a incrível precisão das previsões de Jesus em Mateus 24? Mesmo se eles não tivessem referências à destruição de Jerusalém, haveria pelo menos reflexos sutis de condições pós-70 d.C. em seus escritos que trairiam uma data pré-70 d.C. O Dr. Robinson diz que a ausência de todas as alusões a destruição de Jerusalém pelos escritores do Novo Testamento é “tão significativo quanto o silêncio para Sherlock Holmes do cachorro que não latiu.”2 Vários outros estudiosos evangélicos também defenderam uma data anterior a 70 d.C. para todos os livros do Novo Testamento, por exemplo, Arthur Ogden, Franklin Camp, Milton Terry, David Chilton, J. Stuart Russell, John Lightfoot e Cornelius Vanderwaal.

Norman Geisler, em seu artigo “The Dating of the New Testament” (publicado no site bethinking.org), argumenta por uma data anterior a 63 d.C. para a produção do Evangelho-Atos. Ele cita estudiosos como William F. Albright e John A. T. Robinson como exemplos, mesmo entre acadêmicos liberais, que sugeriram datas anteriores a 70 d.C. para a maioria (se não todos) dos documentos do Novo Testamento. Ernest L. Martin (Restoring the Original Bible) argumenta pela Canonização Apostólica com base no fato de que o apóstolo João viveu além do ano 70 d.C., completando o processo de canonização antes de sua morte, por volta dos anos 90. Contudo, este artigo defende que somente Pedro possuía a autoridade para “ligar e desligar” e que todos os livros canônicos devem ter sido escritos, coletados e certificados por ele antes dele deixar a cena terrestre. Dada a função central de Pedro no processo canônico e sua morte antes de 70 d.C., a teoria de Canonização Apostólica pré-70 d.C., depende criticamente da datação anterior a esse ano para todos os livros do Novo Testamento, inclusive os atribuídos a João. A teoria de Ernest Martin falha em explicar de forma satisfatória como a autoridade de Pedro poderia ter sido transferida a João sem comprometer-se com a teoria católica romana da sucessão apostólica, para a qual não há registro histórico confiável dessa transferência de autoridade.

Os escritores do Novo Testamento não mencionaram a destruição de Jerusalém, a Parousia e seus eventos concomitantes, como eventos já realizados, porque ainda não haviam acontecido!

NOTAS

  1. Redating the New Testament (version edited by Peter Bluer. 2012), p. 19.

    ↩︎
  2. Redating the New Testament (version edited by Peter Bluer. 2012), p. 19.

    ↩︎