O ENSINAMENTO DE NOSSO SENHOR SOBRE A PAROUSIA NOS EVANGELHOS SINÓPTICOS.

O encerramento do ministério de João Batista, em consequência de sua prisão por Herodes Antipas, marca uma nova partida no ministério de nosso Senhor. Na verdade, antes dessa época, Ele ensinou o povo, fez milagres, ganhou adeptos e obteve grande popularidade; mas depois desse evento, que pode ser considerado como uma indicação do fracasso da missão de João, nosso Senhor retirou-se para a Galileia e lá entrou em uma nova fase de Seu ministério público. Somos informados de que “desde então, Jesus começou a pregar e a dizer: Arrependa-se, porque o reino dos céus está próximo”. (Mateus 4:17) Estes são os termos precisos com os quais a pregação de João Batista é descrita. (Mateus 3:2) Tanto nosso Senhor quanto seu precursor chamaram “a nação ao arrependimento”, e anunciaram a aproximação do “reino dos céus”. Segue-se que João não poderia querer dizer com a frase, “o reino dos céus está próximo”, meramente que o Messias estava para aparecer, pois quando Cristo apareceu, Ele fez o mesmo anúncio. “O reino dos céus está próximo“. Da mesma forma, quando os doze discípulos foram enviados em sua primeira missão evangelística, eles receberam a ordem de pregar, não que o reino dos céus era chegado, mas que estava próximo. (Mateus 10:7) Além disso, que o reino não veio no tempo de nosso Senhor, nem no dia de Pentecostes, é evidente pelo fato de que em Seu discurso profético no Monte das Oliveiras, nosso Senhor deu aos Seus discípulos certos sinais pelos quais eles poderiam saber que o reino de Deus estava próximo. (Lucas 21:31)

Portanto, chegamos a certas conclusões claramente dedutíveis dos ensinamentos de nosso Senhor:

1- Que uma grande crise, ou consumação, chamada “o reino dos céus, ou de Deus”, foi proclamado por Ele como estando próximo. 2- Que esta consumação, embora próxima, não ocorreria em Sua própria vida, nem ainda por alguns anos após Sua morte. 3- Que Seus discípulos, ou pelo menos alguns deles, podem esperar testemunhar sua chegada.

Mas todo o assunto do “reino dos céus” deve ser reservado para uma discussão mais completa em um período futuro.

PREVISÃO DA IRA VINDOURA SOBRE AQUELA GERAÇÃO.

Há outro ponto de semelhança entre a pregação de nosso Senhor e a de João Batista. Ambos deram as mais claras sugestões da aproximação de um tempo de julgamento que deveria atingir a geração existente, por causa de sua rejeição das advertências e convites da misericórdia divina. Assim como o Batista falou da “ira vindoura”, nosso Senhor com igual clareza preveniu o povo do “julgamento vindouro”. Ele repreendeu “as cidades em que a maioria de suas obras poderosas foram feitas, porque não se arrependeram”, e predisse que uma desgraça mais pesada se abateria sobre eles do que sobre Tiro e Sídon, Sodoma e Gomorra. (Mateus 11:20-24) Que tudo isso aponta para uma catástrofe que não era remota, mas próxima, e que realmente alcançaria a geração existente, parece evidente a partir das declarações expressas de Jesus.

Mateus 12:38-45 (compare Lucas 11:16, 24-36): “Então certos escribas e fariseus responderam, dizendo: Mestre, desejaríamos ver de ti um sinal. Mas ele, respondendo, disse-lhes: Uma geração má e adúltera busca um sinal; porém nenhum sinal lhe será dado, senão o sinal do profeta Jonas. Pois, assim como Jonas esteve três dias e três noites no ventre da baleia, assim estará o Filho do homem três dias e três noites no coração da terra. Os homens de Nínive se levantarão no juízo com esta geração, e a condenarão; porque se arrependeram com a pregação de Jonas; e eis que está aqui quem é maior do que Jonas. A rainha do sul se levantará no juízo com esta geração, e a condenará; porque veio dos confins da terra para ouvir a sabedoria de Salomão; e eis que está aqui quem é maior do que Salomão. Quando o espírito imundo sai do homem, anda por lugares áridos, buscando repouso, e não o encontra. Então diz: Voltarei para minha casa, de onde saí; e, chegando, acha-a desocupada, varrida e adornada. Então vai, e toma consigo outros sete espíritos piores do que ele, e entrando, habitam ali; e o último estado desse homem é pior do que o primeiro. Assim acontecerá também a esta geração perversa.”

Esta passagem é de grande importância para estabelecer o verdadeiro significado da frase “esta geração” [ἡ γενεὰ αὕτη]. Só pode se referir, neste lugar, ao povo de Israel que então vivia – a geração existente. Nenhum comentarista jamais propôs chamar “γενεὰ” aqui de raça judaica em todas as épocas. Nosso Senhor estava acostumado a falar de Seus contemporâneos como esta geração:

“Mas, a que devo comparar esta geração?” – isto é, os homens daquela época que não deram ouvidos a Seu precursor nem a Ele mesmo. (Mateus 11:16; Lucas 7:31) Mesmo comentaristas como Stier, que detém a interpretação de “γενεὰ” como uma raça ou linhagem em outras passagens, admite que a referência nessas palavras é “para a geração que estava viva naquele época e naquele momento, e mais importante”.1 Assim, na passagem diante de nós, não pode haver controvérsia a respeito da aplicação das palavras exclusivamente à geração então existente, os contemporâneos de Cristo. Do agravamento e enorme maldade daquele período, nosso Senhor aqui testifica. A mesma geração foi abordada por Ele nas próprias palavras do Batista – “Raça de víboras”. (Mateus 12:34) Sua culpa é declarada superior à dos pagãos; é comparado a um endemoninhado, de quem o espírito imundo se afastou por um tempo, mas voltou com mais força do que antes, acompanhado por sete outros espíritos mais perversos do que ele, de modo que “o último estado daquele homem é pior do que o primeiro”.

Temos no testemunho de Josefo uma confirmação impressionante da descrição de nosso Senhor sobre a condição moral dessa geração. “Como era impossível relatar suas enormidades em detalhes, devo declarar resumidamente que nenhuma outra cidade jamais suportou calamidades semelhantes, e nenhuma geração jamais existiu mais prolífica no crime. Eles confessaram ser o que eram – escravos e a própria escória da sociedade, os espúrios e poluídos descendentes da nação”.2 “E aqui não posso deixar de expressar o que meus sentimentos me sugerem. Sou da opinião de que, se os romanos tivessem adiado o castigo desses miseráveis, ou a terra teria se aberto e engolido a cidade, ou ela teria sido varrida por um dilúvio, ou teria recebido os raios do céu como a terra de Sodoma. Pois ela gerou uma raça muito mais ímpia do que aqueles que foram assim visitados. Por causa da loucura desesperada desses homens, toda a nação foi envolvida em sua ruína”.3 “Aquele período havia de algum modo se tornado tão prolífico em iniquidade de toda espécie entre os judeus, que nenhuma obra de maldade foi deixada sem ser praticada… tão universal era o contágio, tanto em público como privado, e tal a emulação para superar um ao outro em atos de impiedade para com Deus, e de injustiça para com o próximo”.4

Tal era a terrível condição para a qual a nação se apressava quando nosso Senhor pronunciou essas palavras proféticas. O clímax ainda não havia sido alcançado, mas estava bem à vista. O espírito imundo ainda não voltou para sua casa, mas ele estava a caminho. Como Stier observa: “No período entre a ascensão de Cristo e a destruição de Jerusalém, especialmente no final disso, poderíamos dizer que esta nação parece possuída por sete mil demônios”.5 Não é este um cumprimento adequado e completo da predição do nosso Salvador? Temos a menor justificativa, ou a menor necessidade, de dizer que isso significa outra coisa, ou algo mais, do que isso? Que razão existe para assumir um cumprimento adicional e futuro de suas palavras? Não é um desacredito total da profecia de Jesus buscando algo mais do que o significado óbvio que aponta tão claramente para uma catástrofe iminente que estava prestes a ocorrer nessa geração? Certamente, mostramos maior reverência pela palavra de Deus quando aceitamos implicitamente seus ensinamentos óbvios e rejeitamos as especulações injustificadas e meramente humanas que os críticos e os teólogos extraíram de sua própria fantasia. Concluímos, então, que, na escandalosa devassidão da época, e nas calamidades marcantes que antes de seu fim dominaram o povo judeu, temos a atestação histórica do cumprimento exaustivo dessa profecia. 

OUTRAS ALUSÕES À IRA VINDOURA.

Lucas 13:1-5: “Naquela mesma ocasião, estavam ali alguns que lhe relataram acerca dos galileus, cujo sangue Pilatos misturara com os seus sacrifícios. E Jesus, respondendo, disse-lhes: Cuidais vós que esses galileus foram mais pecadores do que todos os outros galileus, por terem padecido tais coisas? Digo-vos: Não; mas, se não vos arrependerdes, todos perecereis de igual modo. Ou aqueles dezoito, sobre os quais caiu a torre de Siloé, e os matou, pensais que foram mais culpados do que todos os homens que habitam em Jerusalém? Digo-vos: Não; mas, se não vos arrependerdes, todos perecereis de igual modo.”

Quão vividamente nosso Senhor percebeu as iminentes calamidades da nação, e quão claras e distintas eram suas advertências, pode-se inferir desta passagem. O massacre de alguns galileus que haviam subido a Jerusalém para a festa da Páscoa, por ordem ou conivência do governador romano; e a súbita destruição de dezoito pessoas pela queda de uma torre perto do tanque de Siloé foram incidentes que formaram o assunto das conversas entre o povo da época. Nosso Senhor declara que as vítimas dessas calamidades não eram excepcionalmente más, mas que um destino semelhante se abateria sobre as mesmas pessoas que agora falam sobre elas, a menos que se arrependessem. O ponto de sua observação, que muitas vezes é esquecido, reside na semelhança da destruição ameaçada. Ele não disse: “todos vocês irão perecer também“, mas “todos vocês vão perecer da mesma maneira” [ὡσαύτως]. Que nosso Senhor tinha em vista a ruína final, que estava prestes a dominar Jerusalém e a nação, dificilmente se pode duvidar. A analogia entre os casos é real e impressionante. Foi na festa da Páscoa que a população da Judeia se reuniu em Jerusalém, e ali foi preso pelas legiões de Tito, Josefo nos diz como, na última agonia do cerco, o sangue dos sacerdotes que oficiaram foi derramado ao pé do altar sacrificial. Os soldados romanos eram os executores do julgamento divino; e quando o templo e a torre caíram no chão, eles enterraram em suas ruínas muitas vítimas infelizes. É gratificante ver tanto Alford quanto Stier reconhecendo a alusão histórica nesta passagem. O primeiro observa: “ὡσαύτως (cujo sentido se perde na versão inglesa ‘likewise‘ [de igual modo]) deveria ser traduzido como ‘in like manner’ [da mesma maneira], como de fato o povo judeu pereceu pela espada dos romanos.”6

DESTINO IMINENTE DA NAÇÃO JUDAICA.
Parábola da Figueira Estéril.

Lucas 13:6-9: “E disse também esta parábola: Certo homem tinha uma figueira plantada na sua vinha; e veio procurar nela fruto, e não o achou. Então disse ao viticultor: Eis que há três anos venho procurar fruto nesta figueira, e não acho; corta-a; por que ocupa ainda inutilmente a terra? E ele, respondendo, disse-lhe: Senhor, deixa-a ainda este ano, até que eu a escave ao redor, e a esterque; e, se der fruto, ficará; e, se não, depois tu a cortarás.”

O mesmo significado profético é revelado nesta parábola, que é quase a contrapartida da que aparece em Isaías 5, tanto na forma como no significado. A verdadeira interpretação é tão óbvia que torna a explicação quase desnecessária. Sua influência sobre o povo de Israel é muito distinta e direta, mais especialmente quando vista em conexão com as advertências anteriores. Israel é a árvore infrutífera, há muito cultivada, mas que não dá retorno ao dono. Estava agora em sua última tentativa: o machado, como João Batista havia declarado, foi posto à raiz da árvore; mas o golpe fatal foi retardado pela intercessão da misericórdia. O Salvador já estava então em Sua graciosa obra de educação e cultura; um pouco mais, e o decreto seria aprovado – “Corte-a; por que ocupa ainda inutilmente a terra?”

Não há dúvida de que, nessa como em outras parábolas, existem princípios gerais aplicáveis ​​a todas as nações e a todos os tempos; mas não devemos perder de vista sua referência original e primária ao povo judeu. Stier e Alford parecem perder-se na busca de significados recônditos e místicos nos pequenos detalhes das imagens; Mas Neander dá uma explicação luminosa de sua verdadeira importância: “Assim como a árvore infrutífera, falhando em perceber o objetivo de sua existência, foi destruída, assim a nação teocrática, pela mesma razão, foi conquistada, após longa tolerância, pelos julgamentos de Deus, e excluída do Seu reino”.7

O FIM DA ERA, OU DA DISPENSAÇÃO JUDAICA.
Parábola do Joio e do Trigo.

Mateus 13:36-50: “Então Jesus despediu a multidão, e foi para casa; e seus discípulos vieram a Ele, dizendo: Declara-nos a parábola do joio do campo. E Ele, respondendo, disse-lhes: O que semeia a boa semente é o Filho do homem; o campo é o mundo; a boa semente são os filhos do reino; mas o joio são os filhos do maligno; o inimigo que o semeou é o diabo; a ceifa é o fim do mundo [era]; e os ceifeiros são os anjos. Assim como o joio é colhido e lançado no fogo, assim será no fim deste mundo [era]. O Filho do homem enviará os seus anjos, e eles colherão do seu reino tudo o que causa escândalo, e os que praticam a iniquidade, e os lançarão na fornalha de fogo; ali haverá pranto e ranger de dentes. Então os justos resplandecerão como o sol no reino de seu Pai. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça. […] Outra vez, o reino dos céus é semelhante a uma rede lançada ao mar, que apanhou de toda espécie. E, estando cheia, os pescadores a puxaram para a praia; e, assentando-se, ajuntaram os bons em vasos, porém os ruins lançaram fora. Assim será no fim do mundo [era]: sairão os anjos, e separarão os maus dentre os justos, e os lançarão na fornalha de fogo; ali haverá pranto e ranger de dentes.”

Encontramos nas passagens aqui citadas um exemplo de uma dessas traduções errôneas que muito fizeram para confundir e enganar os leitores comuns de nossas versões. É provável que noventa e nove em cada cem entendam pela frase “o fim do mundo,” o fim da história humana e a destruição da terra material. Eles não imaginariam que o “mundo” em Mateus 13:38 e o “mundo” em Mateus 13:39, 40, são palavras totalmente diferentes, com significados totalmente diferentes. No entanto, esse é o fato. κόσµος em Mateus 13:38 é o mundo corretamente traduzido e refere-se ao mundo dos homens, mas o αἰών em Mateus 13:39, 40, refere-se a um período de tempo e deve ser traduzido por era ou época. Lange traduz como um æon. É de suma importância compreender corretamente o verdadeiro significado desta palavra, e da expressão “o fim do æon, ou era“. Αἰὼν é, como dissemos, um período de tempo, ou uma era. É exatamente equivalente à palavra latina aevum, que é meramente αἰών com traje latino; e a frase συντελείας τοῦ αἰῶνος, traduzida em nossa versão, “o fim do mundo,” deveria ser “o fim da era”. Tittman observa: “συντελείας τοῦ αἰῶνος no Novo Testamento, não indica o fim do mundo, mas sim a consumação do αἰών, que deve ser seguido por uma nova era. Este é o caso em Mateus 13:39, 40, 49; 24:3; tememos que esta última passagem seja mal interpretada quando aplicada à destruição do mundo”.8 Sempre foi crença dos judeus que o Messias inauguraria um novo æon, ou uma nova era: e este novo æon, ou era, eles chamavam de “reino dos céus”. O æon existente: portanto, era a dispensação judaica, que agora estava chegando ao seu fim; e o Senhor mostra nessas parábolas de forma impressionante como isso aconteceria. Na verdade, é surpreendente que os expositores tenham falhado em reconhecer nessas previsões solenes a reprodução e reiteração das palavras de Malaquias e de João Batista. Aqui encontramos a mesma separação final entre os justos e os ímpios; a mesma purificação da terra; a mesma coleta do trigo no celeiro; a mesma queima da palha [joio, restolho] no fogo. Pode haver alguma dúvida de que este é o mesmo ato de julgamento, no mesmo período de tempo, para o mesmo evento histórico, ao qual Malaquias, João e nosso Senhor se referem?

Mas vimos que João Batista previu um julgamento que era então iminente – uma catástrofe tão próxima que o machado já estava na raiz das árvores – de acordo com a profecia de Malaquias, que “o dia grande e terrível do Senhor” seguiria a vinda do segundo Elias. Somos, portanto, levados à conclusão de que esta discriminação entre os justos e os ímpios, esta coleta do trigo no celeiro e queima do joio na fornalha de fogo, referem-se à mesma catástrofe, isto é, a ira que veio sobre aquela mesma geração, quando Jerusalém se tornou literalmente “uma fornalha de fogo”, e o æon do Judaísmo chegou ao fim no “grande e terrível dia do Senhor”.

Esta conclusão é apoiada pelo fato de que há uma conexão estreita entre esta grande época judicial e a vinda do “reino dos céus”. Nosso Senhor representa a separação dos justos e dos ímpios como a característica da grande consumação que é chamada de “o reino de Deus”. Mas o reino foi declarado próximo. Segue-se, portanto, que as parábolas diante de nós se referem, não a um evento remoto ainda no futuro, mas a um que no tempo de nosso Salvador estava próximo.

Um argumento adicional a favor deste ponto de vista deriva da consideração de que nosso Senhor, em sua explicação da parábola da joio, fala de si mesmo como semeador da boa semente: “Aquele que semeia a boa semente é o Filho do Homem“. É para o Seu próprio ministério pessoal e resultados que ele se refere e, portanto, devemos considerar a parábola para ter uma relação especial com seus contemporâneos. Isto está em perfeita harmonia com sua solene advertência de Lucas 13:26-28, onde Ele descreve a condenação daqueles que tiveram o privilégio de apreciar Sua presença pessoal e ministério, e que fingiram discipulado, mas eram joio e não trigo. “Então começareis a dizer: Temos comido e bebido na tua presença, e tu tens ensinado nas nossas ruas. E ele vos responderá: Digo-vos que não vos conheço nem sei de onde vós sois; apartai-vos de mim, vós todos os que praticais a iniquidade. Ali haverá choro e ranger de dentes, quando virdes Abraão, e Isaque, e Jacó, e todos os profetas no reino de Deus, e vós lançados fora”. Por mais aplicável aos homens em geral sob o evangelho tal linguagem pode ser, é claro que ela teve uma aplicação direta e específica sobre os contemporâneos de nosso Senhor – a geração que testemunhou Seus milagres e ouviu Suas parábolas; e que tem uma relação com eles que não pode ter com nenhum outro.

Encontramos na conclusão da parábola do joio uma “nota bene” impressionante, que chama a atenção de uma maneira especial para a instrução contida nela: “Aquele que tem ouvidos para ouvir, que ele ouça”. Podemos aproveitar a ocasião para fazer uma observação sobre a vasta importância de uma concepção verdadeira do período em que nosso Senhor e Seus apóstolos ensinaram. Isto é indispensável para a correta compreensão da doutrina do Novo Testamento concernente ao “reino de Deus,” ao “fim do æon,” e ao “æon vindouro,” ou “mundo por vir” (αἰὼν ὁ μέλλων). Esse período foi próximo ao fim da dispensação judaica. A economia mosaica, como é chamada – o sistema de leis e instituições dado à nação pelo próprio Deus, e que existiu por mais de quarenta gerações – estava para ser substituída e desaparecer. Já estava em cena a última geração que possuía a terra – a última e também a pior – a filha e herdeira de seus predecessores. O longo período durante o qual o Senhor esgotou todos os métodos que a sabedoria divina e o amor divino poderiam conceber para cultivar e reformar Israel estava prestes a terminar. Isso acabaria desastrosamente. A Ira, por muito tempo contida e reprimida, explodiria sobre aquela geração. Seu “último dia” seria um dies irae “o grande e terrível dia do Senhor”. Isto é o συντελείας τοῦ αἰῶνος, “o fim da era,” tão frequentemente referido por nosso Senhor, e constantemente predito por Seus apóstolos. Eles já estavam na penumbra daquela tremenda crise, que a cada dia se aproximava mais e mais, e que finalmente viria de repente, “como um ladrão na noite”. Esta é a verdadeira explicação das constantes exortações à vigilância, paciência e esperança, que abundam nas epístolas apostólicas. Eles viveram esperando uma consumação que viria em seu próprio tempo e que eles poderiam testemunhar com seus próprios olhos. Esse fato está na própria face dos escritos do Novo Testamento; é a chave para a interpretação de muito que de outra forma seria obscuro e ininteligível, e veremos no progresso desta investigação quão consistentemente esta visão é apoiada por todo o teor das Escrituras do Novo Testamento.

A VINDA DO FILHO DO HOMEM (A PAROUSIA) DURANTE A VIDA DOS APÓSTOLOS.

Mateus 10:23: “Mas, quando vos perseguirem nesta cidade, fugí para outra; porque em verdade vos digo que não acabareis de percorrer as cidades de Israel, até que venha o Filho do homem.”

Nesta passagem, encontramos a primeira menção clara a esse grande evento que veremos com tanta frequência a respeito de nosso Senhor e seus Apóstolos, a saber, Sua vinda novamente, sua Parousia. Na verdade, pode-se perguntar, como veremos, se esta passagem corretamente pertence a esta parte da história do evangelho.9 Mas, deixando de lado a questão por enquanto, vamos nos perguntar o que realmente é a vinda do qual é falado aqui. Isso pode significar, como Lange sugere, que Jesus deveria seguir tão rapidamente os passos de Seus mensageiros em seu circuito evangelístico a ponto de alcançá-los antes que fosse concluído? Ou se refere, como Stier e Alford pensam, a duas vindas diferentes, separadas uma da outra por milhares de anos: uma comparativamente próxima, a outra indefinidamente remota? Ou devemos, com Michaelis e Meyer, aceitar o significado claro e óbvio que as próprias palavras sugerem? A interpretação de Lange é certamente inadmissível. Quem pode duvidar que “a vinda do Filho do homem” está aqui, o que está em todos os outros lugares, a fórmula pela qual a Parousia, a segunda vinda de Cristo, é expressa? Esta frase tem um significado definido e constante, bem como a sua crucificação, ou a sua ressurreição, e não admite qualquer outra interpretação. Mas poderia ter uma dupla referência, primeiro, ao julgamento iminente de Jerusalém e, segundo, à destruição final do mundo, sendo o primeiro considerado como sombra do segundo? Alford aceita o duplo significado e é severo com aqueles que hesitam em aceitá-lo. Ele nos diz o que ele acha que Cristo queria dizer; mas, por outro lado, temos que considerar o que Ele disse. Os defensores do duplo sentido têm certeza de que Ele quis dizer mais do que disse? Veja suas palavras. Pode algo ser mais específico e definido quanto a pessoas, lugar, tempo e circunstâncias, do que esta predição de nosso Senhor? É aos doze que ele fala; são as cidades de Israel que eles devem evangelizar; o assunto é Sua própria vinda rápida; e o tempo tão próximo, que antes que seu trabalho seja concluído, Sua vinda ocorrerá. Mas se quisermos ser informados de que esse não é o significado, nem mesmo a metade, e que isso inclui outra vinda, a outros evangelistas, a outras épocas e outras terras – uma vinda que, depois de dezoito séculos, ainda é futuro, e talvez remoto – então surge a pergunta: O que pode não significar a Escritura? O sentido gramatical das palavras não é mais suficiente para a interpretação; A Escritura é um enigma a ser adivinhado – um oráculo que emite respostas ambíguas; e nenhum homem pode ter certeza, sem uma revelação especial, de que entende o que lê. Portanto, estamos dispostos a concordar com Meyer que esta dupla referência “não é nada além de uma evasão forçada e antinatural”, as palavras significam simplesmente o que dizem – que antes que os apóstolos completassem sua obra de evangelizar a terra de Israel, a vinda do Senhor deveria acontecer.

Esta é a interpretação da passagem adotada pelo Dr. E. Robinson.10 “Por meio desta linguagem, nosso Senhor provavelmente pretendia insinuar que os apóstolos não terminariam de evangelizar as cidades da Palestina antes que Ele viesse para destruir Jerusalém e dispersar a nação.” Assim também o Dr. A. B. Bruce.11 “A vinda à qual se alude é a destruição de Jerusalém e a dispersão da nação judaica; e o significado é que os apóstolos mal teriam tempo, antes que a catástrofe viesse, de percorrer a terra advertindo o povo a salvar-se da condenação de uma geração perversa; de modo que não poderiam, com propriedade, demorar-se em qualquer localidade depois que seus habitantes houvessem ouvido e rejeitado a mensagem.”

A PAROUSIA TEM LUGAR DURANTE A VIDA DE ALGUNS DOS DISCÍPULOS.
Mateus 16:27, 28:

“Porque o Filho do homem virá na glória de seu Pai, com seus anjos; e então recompensará a cada um segundo as suas obras.”





“Em verdade vos digo que há alguns aqui presentes que não provarão a morte até que vejam o Filho do homem vindo no seu reino.”
Marcos 8:38; 9:1:

‘Portanto, qualquer que se envergonhar de mim e das minhas palavras nesta geração adúltera e pecadora, também o Filho do homem se envergonhará dele, quando vier na glória de seu Pai, com os santos anjos.”

“E ele lhes disse: Em verdade vos digo que há alguns dos que estão aqui, que não provarão a morte até que tenham visto o reino de Deus vir com poder.’
Lucas 9:26, 27:

“Porque qualquer que se envergonhar de mim e das minhas palavras, também o Filho do homem se envergonhará dele, quando vier na sua própria glória, e na glória do Pai, e dos anjos santos.”


“Mas eu vos digo em verdade, que há alguns dos que estão aqui, que não provarão a morte até que vejam o reino de Deus.”

Esta declaração notável é de extrema importância nesta discussão e pode ser considerada como a chave para interpretar corretamente a doutrina da Parousia no Novo Testamento. Embora não se possa dizer que haja alguma dificuldade especial na linguagem, isso deixou muito perplexos os comentaristas, que estão muito divididos em suas explicações. Certamente é desnecessário perguntar o que é a vinda do Filho do homem aqui predita. Supor que se refere meramente à gloriosa manifestação de Jesus no monte da transfiguração, embora esta seja uma hipótese apoiada por grandes nomes, é tão palpavelmente inadequada como uma interpretação que dificilmente precisa ser refutada. A mesma observação se aplicará aos comentários do Dr. Lange, que supõe que ela foi parcialmente cumprida pela ressurreição de Cristo. Sua exegese é uma ilustração tão curiosa das mudanças às quais os defensores de uma teoria da interpretação de duplo sentido são obrigados a recorrer, a ponto de merecer uma citação. “Em nossa opinião”, diz ele, “é necessário distinguir entre o advento de Cristo na glória de Seu reino dentro do círculo de Seus discípulos, e aquele mesmo advento aplicado ao mundo em geral e para julgamento. Este último é o que geralmente se entende por segundo advento: o primeiro ocorreu quando o Salvador ressuscitou dos mortos e se revelou no meio de Seus discípulos. Portanto, o significado das palavras de Jesus é: está próximo o momento em que seus corações serão colocados em repouso pela manifestação de Minha glória; nem será o destino de todos os que estão aqui morrer durante o intervalo. O Senhor poderia ter dito que apenas dois daquele círculo morreriam até então, a saber, ele mesmo e Judas. Mas, em Sua sabedoria, escolheu a expressão: ‘Alguns dos que estão aqui não provarão a morte’, para dar-lhes exatamente aquela medida de esperança e sincera expectativa de que necessitavam”.12

Basta dizer que tal interpretação das palavras de nosso Salvador nunca poderia ter passado pelas mentes daqueles que as ouviram. É tão implausível, intrincada e artificial, que é desacreditada pela própria ingenuidade. Mas a interpretação também não satisfaz os requisitos da linguagem. Como a ressurreição de Cristo poderia ser chamada de Sua vinda na glória de Seu Pai, com os santos anjos, em Seu reino e para o julgamento? Ou como podemos supor que Cristo, falando de um evento que ocorreria em cerca de doze meses, diria: “Em verdade vos digo: Há alguns aqui que não provarão a morte até que a vejam”? A própria forma da expressão mostra que o acontecimento de que se fala não pode acontecer no espaço de alguns meses, ou mesmo de alguns anos: é um modo de falar que sugere que não todos os presentes viverão para ver o evento falado; que muitos não o farão; mas alguns o farão. É exatamente a maneira de falar que caberia a um intervalo de trinta ou quarenta anos, quando a maioria das pessoas então presentes teria falecido, mas algumas sobreviveriam e testemunhariam o evento referido.

Alford e Stier entendem mais razoavelmente a passagem como referindo-se “à destruição de Jerusalém e à plena manifestação do reino de Cristo pela aniquilação da política judaica,”13 embora ambos embaraçam e confundam sua interpretação com a hipótese de uma oculta e ulterior alusão a outra “vinda final”, da qual a destruição de Jerusalém foi o “tipo e sinal“. Disto, no entanto, nenhuma sugestão é dada pelo próprio Cristo ou pelos evangelistas. Na verdade, não se pode negar que, ocasionalmente, nosso Senhor proferiu uma linguagem ambígua. Ele disse aos judeus: “Destruí este templo, e em três dias eu o levantarei;” (João 2:19), mas o evangelista tem o cuidado de acrescentar: “Mas ele falava do templo do seu corpo”. Portanto, quando Jesus falou de “rios de água viva fluindo do coração do crente”, São João acrescenta uma nota explicativa: “Ele falou do espírito”, etc. (João 7:36) Novamente, quando o Senhor aludiu à maneira de sua própria morte, “Eu, quando for levantado da terra,” etc., o evangelista acrescenta: “Isto ele disse, significando que morte ele deveria morrer”. (João 12:33) Portanto, é razoável supor que, se os evangelistas conhecessem um significado mais profundo e mais oculto das previsões de Cristo, teriam dado uma indicação disso; mas eles não dizem nada que nos leve a inferir que seu significado aparente não é seu significado completo e verdadeiro. Na verdade, não há ambiguidade quanto a vinda do que é aludido na passagem agora em consideração. Não é uma das várias vindas possíveis; mas o único, e supremo evento, tão frequentemente predito por nosso Senhor, tão constantemente esperado por Seus discípulos. É a Sua vinda em glória; Sua vinda para julgamento; Sua vinda em Seu reino; a vinda do reino de Deus. Não é um processo, mas um ato. Não é a mesma coisa que “a destruição de Jerusalém” – este é outro evento relacionado e contemporâneo; mas os dois não devem ser confundidos. O Novo Testamento conhece apenas uma Parousia, uma vinda em glória do Senhor Jesus Cristo. É completamente um abuso de linguagem falar de vários sentidos nos quais se pode dizer que Cristo vem – como em Sua própria ressurreição; no dia de Pentecostes; na destruição de Jerusalém; na morte de um crente; e em várias épocas providenciais. Este não é o uso do Novo Testamento, nem é uma linguagem precisa em nenhum ponto de vista. Somente esta passagem contém tanta verdade importante a respeito da Parousia, que se pode dizer que cobre todo o terreno; e, quando usado corretamente, será considerado a chave para a verdadeira interpretação da doutrina do Novo Testamento sobre esse assunto.

Concluímos então:

1. Que a vinda da qual se fala aqui é a Parousia, a segunda vinda do Senhor Jesus Cristo.

2. Que a maneira de Sua vinda seria gloriosa – “em sua própria glória”; “na glória de seu Pai”; com os santos anjos”.

3. Que o objetivo de Sua vinda era julgar aquela “geração ímpia e adúltera” (Marcos 8:38) e “recompensar a cada um segundo as suas obras”.

4. Que Sua vinda seria a vinda do “reino de Deus”; o fim do æon; “a vinda do reino de Deus com poder”.

5. Que essa vinda foi expressamente declarada por nosso Salvador como próxima. Lange justamente observa que as palavras, µέλλεί γὰρ, são “enfaticamente colocadas no início da frase; não como um futuro simples, mas eles significam: o evento é iminente e que em breve Ele virá, está prestes a vir”.14

6. Que alguns daqueles que ouviram nosso Senhor proferir essa predição viveriam para testemunhar o evento do qual Ele falou, a saber, Sua vinda em glória.

A inferência, portanto, é que a Parousia, ou gloriosa vinda de Cristo, foi declarada por Ele mesmo como estando dentro dos limites da geração então existente – uma conclusão que veremos na sequência ser abundantemente justificada.

A VINDA DO FILHO DO HOMEM É CERTA E RÁPIDA.
Parábola da Viúva Inoportuna.

Lucas 18:1-8: “E falou-lhes uma parábola com este fim, que os homens devem orar sempre e não desfalecer; dizendo: Havia em uma cidade um juiz, que não temia a Deus, nem respeitava homem algum. E havia uma viúva naquela cidade; e ela veio até ele, dizendo: Vinga-me do meu adversário. E ele não quis por algum tempo; mas depois disse consigo mesmo: Embora eu não tema a Deus, nem respeite homem algum, contudo, porquanto esta viúva me incomoda, vinga-la-ei, para que, vindo ela continuamente, não me desgaste. E o Senhor disse: Ouvi o que diz o juiz injusto. E Deus não vingará os seus escolhidos, que clamam a ele dia e noite, embora tardando em atendê-los? Eu vos digo que os vingará depressa. Contudo, quando o Filho do homem vier, achará fé no mundo [na terra]?”

O caráter intensamente prático e atual, se podemos chamá-lo assim, dos discursos de nosso Senhor, é uma característica de seus ensinamentos que, embora muitas vezes negligenciados, requer que ele não seja perdido de vista. Ele falou com seu próprio povo, em seu próprio tempo. Ele era o mensageiro de Deus para Israel; e, embora seja verdadeiro que suas palavras são para todos os homens em todos os tempos, foram aplicadas principalmente e diretamente à sua própria geração. Por falta de atenção a este fato, muitos expositores perderam completamente a intenção da parábola diante de nós. Em suas mãos, torna-se uma predição vaga e indefinida de uma reivindicação dos justos, em algum período mais ou menos remoto, mas sem qualquer aplicação especial para o povo e para o tempo do próprio Senhor. Certamente, qualquer aplicação pessoal que essa parábola possa trazer para nós ou para tempos futuros, teve uma aplicação direta e específica aos discípulos a quem foi originalmente falada. O Senhor estava prestes a deixar seus discípulos “como ovelhas no meio dos lobos;” eles seriam perseguidos e afligidos, e odiados por todos os homens, pelo amor de seu Mestre; e poderia muito bem acontecer que faltasse coragem e que seus corações desmaiassem. Nessa parábola, o Salvador os incentiva a “orar sempre e não desmaiar,” pelo exemplo do que a oração perseverante pode fazer até mesmo com o homem. Se a importunação de uma viúva pobre pudesse constranger um juiz sem princípios a fazer o que era certo, quanto mais Deus, o justo Juiz, seria movido pelas orações de Seus próprios filhos para que suas queixas fossem reparadas. Sem alegorizar todos os detalhes da parábola, à maneira de alguns expositores, basta marcar sua grande moral. É isto. Os perseguidos filhos de Deus seriam vingados com segurança e rapidez. Deus os vindicará, e isso rapidamente. Mas quando? O ponto do tempo não fica indefinido. É “quando o Filho do homem vier”. A Parousia seria a hora de reparação e libertação para o sofredor povo de Deus.

A reflexão de nosso Senhor no final do oitavo versículo merece atenção especial. “No entanto, quando o Filho do homem vier, ele encontrará fé na terra?”. Devemos aqui voltar aos fatos já declarados com respeito ao ministério de João Batista. Vimos como era sombria e ameaçadora a perspectiva do profeta que pregou o arrependimento a Israel. Ele foi o precursor do “grande e terrível dia do Senhor”; ele foi o segundo Elias enviado para proclamar a vinda dAquele que “feriria a terra com uma maldição”. A reflexão de nosso Senhor sugere que Ele previu que o arrependimento, o único que poderia evitar a condenação da nação, não era para ser esperado. Não haveria fé em Deus, em Suas promessas ou em Suas ameaças. O dia dEle, portanto, seria o “dia da vingança”. (Lucas 21:22)

Doddridge compreendeu bem o alcance desta parábola e parafraseia o versículo inicial da seguinte forma: “Assim, nosso Senhor discorreu com Seus discípulos sobre a iminente destruição de Jerusalém pelos romanos; e para seu encorajamento sob aquelas dificuldades que eles poderiam, entretanto, esperar, de seus compatriotas descrentes ou outros, Ele falou uma parábola, para eles, que se destinava a inculcar sobre eles esta grande verdade, que quão aflitivas sejam as suas circunstâncias, devem sempre orar com fé e perseverança, e não desmaiar sob as provações”.15

O que se segue é a sua paráfrase de Lucas 18:8: “Sim, eu vos digo, Ele certamente os vindicará; e quando Ele uma vez empreender, Ele o fará rapidamente também; e esta geração de homens verá e sentirá seu terror. Não obstante, quando o Filho do homem, tendo entrado em posse de Seu glorioso reino, vier a aparecer para este importante propósito, ele encontrará fé na terra?”.16

A RECOMPENSA DOS DISCÍPULOS NO ÆON VINDOURO, OU SEJA, NA PAROUSIA.
Mateus 19:27-29:

“Então Pedro, respondendo, disse-lhe: Eis que nós deixamos tudo, e te seguimos; que teremos, pois?
E Jesus disse-lhes: Em verdade vos digo que vós, que me seguistes, na regeneração, quando o Filho do homem se assentar no trono da sua glória, também vos assentareis sobre doze tronos, julgando as doze tribos de Israel.
E todo aquele que tiver deixado casas, ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou mulher, ou filhos, ou terras, por amor do meu nome, receberá cem vezes tanto, e herdará a vida eterna.”
Marcos 10:28-30:

“Então Pedro começou a dizer-lhe: Eis que nós deixamos tudo, e te seguimos.


E Jesus, respondendo, disse: Em verdade vos digo que ninguém há que tenha deixado casa, ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou mulher, ou filhos, ou terras, por amor de mim e do evangelho,
que não receba cem vezes tanto, já neste tempo, casas, e irmãos, e irmãs, e mães, e filhos, e terras, com perseguições; e no mundo vindouro, a vida eterna.”


Lucas 18:28-30:

“Então Pedro disse: Eis que nós deixamos tudo, e te seguimos.



E ele lhes disse: Em verdade vos digo que ninguém há que tenha deixado casa, ou pais, ou irmãos, ou mulher, ou filhos, por causa do reino de Deus,
que não haja de receber muito mais neste tempo presente, e no mundo vindouro a vida eterna.”







A que período devemos atribuir o evento ou estado aqui chamado por nosso Senhor de “regeneração”[παλιγγενεσία]? É evidentemente contemporâneo de “o Filho do homem sentado no trono de sua glória”; nem pode haver qualquer dúvida de que as duas frases, “O Filho do homem vindo em seu reino” e “O Filho do homem sentado no trono de sua glória”, ambas se referem à mesma coisa, e ao mesmo tempo. Ou seja, é para a Parousia que ambas as expressões apontam.

Temos outra nota de tempo, e outro ponto de coincidência entre a “regeneração” e a Parousia, na referência feita por nosso Senhor à era ou o “æon vindouro” como o período em que Seus discípulos fiéis deveriam receber sua recompensa. (Marcos 10:30, Lucas 18:30) Mas a “era vindoura” [αἰών ὁ µέλλων or ἐρχοµένῳ] estava, como já vimos, para suceder a era ou æon existente  [αἰών αὐτος, ὁ νὐν αἰών], isto é, o período da dispensação judaica, o fim do qual nosso Senhor declarou estar próximo. Concluímos, portanto, que a “regeneração”, a “era vindoura” e a “Parousia” são virtualmente sinônimos ou, em todos os eventos, contemporâneos. A vinda do Filho do homem em Seu reino, ou em Sua glória, é distintamente afirmada como uma vinda para julgamento – “para recompensar a cada homem de acordo com suas obras; (Mateus 16:27) e Seu assentar no trono de Sua glória, na regeneração, é evidentemente um assentar para julgar. Nesse julgamento, os apóstolos deveriam ter a honra de ser assessores do Senhor, de acordo com Sua declaração – (Lucas 22:29, 30) “Eu designo para vocês um reino, como meu Pai designou para mim; para que comais e bebais à minha mesa no meu reino, e vos senteis em tronos, julgando as doze tribos de Israel”. Mas esta gloriosa vinda a julgamento é expressamente afirmada por nosso Senhor como estando dentro dos limites da geração então viva: “Há alguns aqui que não provarão a morte, até que vejam o Filho do homem vindo em seu reino”. (Mateus 16:28) Não foi, portanto, nenhuma esperança longamente adiada e distante que Jesus ofereceu aos Seus discípulos. Não era uma perspectiva ainda vista de longe, na vaga perspectiva de um futuro indefinido. São Pedro e seus condiscípulos estavam plenamente cientes de que “o reino dos céus” estava próximo. Eles aprenderam com seu primeiro professor no deserto; eles haviam sido tranquilizados por seu Senhor e Mestre; eles haviam passado pela Galileia proclamando a verdade a seus compatriotas. Quando o Senhor, portanto, prometeu que no æon vindouro Seus apóstolos deveriam sentar-se em tronos, é concebível que Ele pudesse significar que eras após eras, séculos após séculos, e até mesmo milênio após milênio deviam rolar lentamente antes que eles colhessem suas prometidas honras? A herança da “vida eterna” e o “assentar sobre os doze tronos” ainda estão entre “as coisas que se esperam, mas não se veem” pelos discípulos? Certamente, tal hipótese se refuta. A promessa teria soado como zombaria para os discípulos se tivessem sido informados de que a apresentação seria tão adiada. Por outro lado, se concebermos a “regeneração” como contemporânea da Parousia, e a Parousia, com o fim da era judaica e a destruição da cidade e do templo de Jerusalém, temos um ponto definido de tempo, não muito distante, mas quase à vista dos homens vivos, quando o julgamento predito dos inimigos de Cristo, e a gloriosa recompensa de Seus amigos aconteceria.

NOTAS

  1. Reden Jesu, in loc.

    ↩︎
  2. Jewish War, bk. v. c. x. § 5. [5.10.5] Tradução de Traill.

    ↩︎
  3. Jewish War, bk. v. c. xiii. § 6. [5.13.6]

    ↩︎
  4. Jewish War, bk. vii. c. viii. § 1. [7.8.1]

    ↩︎
  5. Reden Jesu; Mateus 12:43-45.

    ↩︎
  6. Greek Testament, in loc.

    ↩︎
  7. Life of Christ, § 245.

    ↩︎
  8. Synonyms of the New Test. vol. i. p. 70; Bib. Cab. No. iii.

    ↩︎
  9. Há uma dificuldade real nesta passagem que não deve ser negligenciada. Parece inexplicável que nosso Senhor, numa ocasião como esta — ao enviar os doze em uma missão breve, aparentemente restrita a um distrito limitado, e da qual deveriam retornar a Ele em pouco tempo — falasse da Sua vinda como sobrepondo-se a eles antes da conclusão de sua tarefa. Tal linguagem parece pouco apropriada ao período em questão, e pertencer mais propriamente a uma instrução posterior, a saber, àquela registrada no discurso proferido no Monte das Oliveiras (Mateus 24; Marcos 13; Lucas 21). Com efeito, uma comparação dessas passagens bastará para satisfazer a qualquer mente imparcial que todo o parágrafo (Mateus 10:16–23) foi transposto de sua conexão original e inserido no primeiro encargo de nosso Senhor aos Seus discípulos. Encontramos as mesmas palavras referentes à perseguição dos apóstolos, sua entrega aos concílios, seus açoites nas sinagogas, sua apresentação diante de governadores e reis, etc., que se acham registradas no décimo capítulo de São Mateus, atribuídas por São Marcos e São Lucas a um período posterior, a saber, ao discurso no Monte das Oliveiras. Não há evidência de que os discípulos tenham sofrido tal tratamento em sua primeira jornada evangelística. Há, portanto, evidência tão forte quanto a natureza do caso permite de que o versículo 23 e seu contexto pertencem ao discurso no Monte das Oliveiras. Isso removeria a dificuldade que a passagem apresenta no contexto em que a encontramos, e daria coerência e consistência à linguagem que, tal como se encontra, dificilmente se percebe. É fato admitido que nem mesmo os Evangelhos Sinópticos relatam todos os eventos na mesma ordem precisa; deve haver, pois, maior exatidão cronológica em um do que em outro. Stier diz: “Mateus é descuidado com a cronologia nos detalhes” (Reden Jesu, vol. 3, p. 98). Neander, comentando esse mesmo encargo, afirma: “Mateus evidentemente associa muitas coisas às instruções dadas aos apóstolos por ocasião de sua primeira jornada, que, cronologicamente, pertencem a um momento posterior” (Vida de Cristo, § 174, nota b); e novamente, ao tratar do encargo dado aos setenta, conforme registrado por São Lucas, diz: “A coerência inteira e característica de tudo quanto foi falado por Cristo, segundo Lucas, com as circunstâncias (tão superior à disposição de Mateus)”, etc. (Vida de Cristo, § 204, nota l). O Dr. Blaikie observa: “É geralmente aceito que Mateus organizou sua narrativa mais por assuntos e lugares do que por cronologia” (História Bíblica, p. 372). Há, pois, farta razão para atribuir a importante predição contida em Mateus 10:23 ao discurso proferido no Monte das Oliveiras.

    ↩︎
  10. Veja a nota em Harmony of the Four Gospels.

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  11. The Training of the Twelve, p. 117.

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  12. Lange, Comm. em St. Mt. in loc.

    ↩︎
  13. Alford, Greek Test, in loc.

    ↩︎
  14. Veja Lange in loc.

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  15. Family Expositor em Lucas 18:1-8.

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  16. Doddridge tem a seguinte nota sobre “Será que ele encontrará fé na terra?”. “É evidente que a palavra γῆς geralmente significa, não o mundo em geral, mas algum território ou país particular, como em Atos 7:3, 4, 11 e em inúmeros outros lugares, e o contexto aqui o limita ao significado menor. É evidente que os crentes hebreus estavam em maior perigo das perseguições e da angústia. Compare Hebreus 3:12-14; 10:23-39; 12:1-4; Tiago 1:1-4; 2:6”. A interpretação dada pelo judicioso Campbell acrescenta confirmação, se necessário, a essa visão da passagem. “Há uma conexão íntima em tudo o que nosso Senhor diz sobre qualquer assunto de conversa, que raramente escapa de um leitor atento. Se nisso, como é muito provável, Ele se refere à destruição iminente sobre a nação judaica, como o julgamento do Céu por sua rebelião contra Deus, ao rejeitar e assassinar o Messias e perseguindo Seus seguidores, (τῆν πὶστιν) deve ser entendido como significando “essa crença”, ou a crença da verdade particular que Ele vinha inculcando, a saber, que Deus vingará no devido tempo os Seus eleitos e punirá de forma significativa seus opressores; e (τῆς γῆς) deve significar “a terra”, a saber, da Judeia. As palavras podem ser traduzidas de qualquer maneira – mundo ou terra; mas o último, evidentemente, dá-lhes um significado mais definido, e os une mais de perto com aqueles que o precederam”. (Campbell on the Gospels, volume 2: p. 384) O ensino desta parábola instrutiva não está de modo algum esgotado; e vamos encontrá-lo lançar uma luz inesperada em uma passagem muito obscura, em um estágio futuro desta investigação. Enquanto isso, podemos nos referir a 2 Tessalonicenses 1:4-10, como fornecendo um comentário surpreendente sobre toda a parábola, e mostrando a conexão entre o Parousia e a vingança dos eleitos.

    ↩︎