“Tenho como regra absolutamente infalível, na exposição da Sagrada Escritura, que, onde a interpretação literal se sustenta, afastar-se dela é geralmente o pior caminho. Não há nada mais perigoso do que essa arte licenciosa e enganosa, que altera o sentido das palavras como a alquimia faz — ou pretende fazer — com a substância dos metais; faz do texto o que bem entende e, no fim, reduz toda a verdade a nada.” — Hooker

“Os teólogos da Reforma adotaram aquela regra de ouro de toda interpretação sã, que Lutero primeiro introduziu, a saber: que todos os livros sagrados têm um único e exclusivo sentido, o sentido literal.” — Mosheim

PREFÁCIO DE JAMES STUART RUSSELL

Nenhum leitor atento do Novo Testamento pode deixar de perceber a ênfase dada pelos evangelistas e apóstolos à Parousia, ou “vinda do Senhor”. Esse evento é o grande tema da profecia do Novo Testamento. Quase não há um único livro, desde o Evangelho de São Mateus até o Apocalipse de São João, em que não se apresente a Parousia como a gloriosa promessa de Deus e a bendita esperança da igreja. Foi frequentemente e solenemente predito por nosso Senhor; foi incessantemente mantido diante dos olhos dos primeiros cristãos pelos apóstolos; e foi firmemente crido e ardentemente esperado pelas igrejas da era primitiva.

Não se pode negar que existe uma diferença notável entre a atitude dos primeiros cristãos em relação à Parousia e a dos cristãos atuais. Aquela gloriosa esperança, para a qual todos os olhos e corações da era apostólica se voltavam ansiosamente, praticamente desapareceu da visão dos crentes modernos. Quaisquer que sejam as opiniões teóricas expressas em símbolos e credos, deve-se admitir com sinceridade que a “segunda vinda de Cristo” quase deixou de ser uma crença viva e prática.

Diversas causas podem ser apontadas para explicar esse estado de coisas. As previsões precipitadas daqueles que, com excesso de confiança, se propuseram a interpretar a profecia — e o descrédito consequente ao fracasso de suas predições —, sem dúvida, afastaram homens reverentes e sóbrios de se dedicarem ao estudo da “profecia não cumprida”. Por outro lado, há razões para acreditar que a crítica racionalista gerou dúvidas sobre se as predições do Novo Testamento teriam sido realmente destinadas a um cumprimento literal ou histórico.

Entre o racionalismo, de um lado, e o irracionalismo, de outro, surgiu um estado amplamente difundido de incerteza e confusão de pensamento a respeito da profecia do Novo Testamento, o que, em certa medida, explica — embora não justifique — a tendência de relegar todo o assunto à categoria de problemas obscuros e insolúveis.

No entanto, esta é apenas uma explicação parcial. Merece consideração a possibilidade de haver uma diferença fundamental entre a relação da igreja da era apostólica com a predita Parousia e a relação mantida com esse evento pelas eras posteriores. Os primeiros cristãos, sem dúvida, acreditavam estar à beira de uma grande catástrofe, e sabemos com que intensidade e entusiasmo a expectativa da quase imediata vinda do Senhor os inspirava; mas, se não se puder demonstrar que os cristãos de hoje se encontram em posição semelhante, então haveria falta de verdade e autenticidade em simular a mesma expectativa ansiosa e esperança da igreja primitiva. O mesmo evento não pode ser iminente em dois períodos diferentes, separados por quase dois mil anos. Deve, portanto, haver algum grave equívoco por parte daqueles que sustentam que a igreja cristã de hoje ocupa exatamente a mesma posição e deve manter a mesma atitude em relação à “vinda do Senhor” como a igreja nos dias de São Paulo.

O presente volume é uma tentativa, em espírito sincero e reverente, de esclarecer esse equívoco e de determinar o verdadeiro significado da Palavra de Deus sobre um assunto que ocupa lugar tão destacado no ensino de nosso Senhor e Seus apóstolos. É fruto de muitos anos de paciente investigação, e o Autor não poupou esforços para testar ao máximo a validade de suas conclusões. Seu único objetivo foi descobrir o que diz a Escritura, e seu único desejo, ser guiado por uma submissão leal à sua autoridade. O ideal de interpretação bíblica que manteve diante de si é aquele tão bem expresso por um teólogo alemão: “Explicatio plana non tortuosa, facilis non violenta, eademque et exegeticce et Chistanae conscientium pariter arridens”1

Embora a natureza da investigação necessite de uma referência um tanto frequente ao original do Novo Testamento, e às leis da construção e interpretação gramaticais, tem sido objeto do Autor tornar este trabalho o mais popular possível, e tal como qualquer outro homem de educação e inteligência comuns pode ler com facilidade e interesse. A Bíblia é um livro para todo homem, e o autor não escreveu apenas para estudiosos e críticos, mas para muitos que estão profundamente interessados na interpretação bíblica, e que pensam, como Locke, que “uma busca imparcial pelo verdadeiro significado das Sagradas Escrituras é o melhor uso que podem fazer de todo o tempo que têm”.2 Será uma recompensa suficiente por seu trabalho se ele conseguir esclarecer, ainda que em alguma medida, aqueles ensinamentos da revelação divina que foram obscurecidos por preconceitos tradicionais ou mal interpretados por uma exegese equivocada.

NOTAS

  1. Dorner’s tractate, De Oratione Christi Eschatologica, p. 1.

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  2. Locke, Notas em Efésios 1:10.

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