Prefácio do Tradutor — Mateus Fonseca

Para todo estudante reverente da profecia e da escatologia sagrada, a palavra “Parousia” possui um som familiar e solene. É a palavra grega usada no Novo Testamento para descrever a “vinda” ou “presença” de Cristo, o evento conhecido como Sua Segunda Vinda. Foi a partir desse conceito que James Stuart Russell empreendeu uma investigação abrangente das Escrituras, examinando cada passagem que se refere ao retorno de Cristo, a fim de determinar quando ele ocorreria e como se manifestaria. Após minucioso estudo, Russell chegou a uma conclusão ousada: a Parousia não é um evento futuro, mas algo que se cumpriu no primeiro século, com a destruição de Jerusalém no ano 70 d.C. Essa leitura coerente, rigorosa e profundamente bíblica, se tornaria a base do que hoje chamamos de Preterismo.

Mas por que isso importa? Porque dessa questão depende a credibilidade de todo o cristianismo. Se Jesus e os apóstolos erraram ao predizer o tempo de Sua vinda, a própria autoridade das Escrituras entra em colapso. As palavras de Cristo e dos escritores inspirados estão repletas de declarações explícitas e restritas de tempo: “em breve”, “à porta”, “nesta geração”. Eles não deixaram margem para dúvida, afirmaram com clareza que a Parousia ocorreria em seus próprios dias. Críticos liberais, céticos e opositores do cristianismo (tais como o judaísmo e o islamismo) têm usado essas “declarações temporais” para atacar a veracidade do Novo Testamento. Afinal, se a profecia falhou, como confiar no restante da mensagem cristã? James Stuart Russell enfrentou essa questão de modo direto e decisivo. Ele demonstrou que as palavras de Cristo não falharam, mas se cumpriram exatamente como foram ditas, isto é, na geração apostólica, culminando na queda de Jerusalém.

Antes da publicação de The Parousia em 1878, o preterismo existia apenas em fragmentos e intuições dispersas. A obra de Russell lhe deu forma, método e voz. Desde então, tem sido reconhecida como a defesa clássica e sistemática da escatologia preterista, influenciando teólogos reformados e estudiosos ao redor do mundo, entre eles R. C. Sproul, David Chilton, Gary DeMar, Kenneth Gentry, Gary North e James Jordan, que reconhecem o impacto transformador dessa leitura das Escrituras. Embora o movimento tenha florescido inicialmente na Alemanha e na Grã-Bretanha, o cenário americano, ainda marcado pelas feridas da Guerra Civil, mostrou pouco interesse. Contudo, nas últimas décadas, o preterismo ressurgiu com vigor, em parte graças à Internet, que se tornou para essa “reforma escatológica” o que a imprensa de Gutenberg foi para a Reforma protestante: um instrumento providencial de divulgação e renovação teológica.

A Internet é o lugar perfeito para publicar materiais úteis como este.Um dos primeiros textos preteristas a circular online foi justamente The Parousia. E não por acaso: Russell oferece um modelo de exegese rigorosa e reverente. Ao tratar do Apocalipse, por exemplo, ele dedica mais de 170 páginas à sua interpretação e argumenta que o segredo para compreender o livro está nas evidências internas do própio livro. No começo, ouve-se a voz que diz: “As coisas que em breve devem acontecer, porque o tempo está próximo.” (Apocalipse 1:1, 3) E no fim, a mesma voz declara: “Estas palavras são fiéis e verdadeiras… as coisas que em breve devem acontecer… eis que venho sem demora.” (Apocalipse 22:6–7, 12, 20) Como ele mesmo escreve:

“Pode-se dizer que a chave esteve o tempo todo pendurada na porta, visível a todos que tivessem olhos para ver; mas os homens tentaram arrombá-la, forçar a entrada, ou escalar de outra maneira, em vez de simplesmente usar a chave que lhes foi entregue.”

Russell não deixa refúgios legítimos para o futurismo. A precisão substancial de suas conclusões pode ser presumida do fato de que a profecia do Novo Testamento é consistente e fácil de interpretação, e o resultado totalmente digno do Evangelho da salvação. Sua pesquisa em todas as referências da “Parousia” (segunda vinda) é um tour na exegese preterista. Em The Parousia, Russell demonstra de forma exaustiva que todas as profecias sobre “o tempo do fim” possuem relevância de audiência, isto é, foram dirigidas ao público original do primeiro século. O Novo Testamento não foi escrito primariamente para nós, mas para eles. Nossa tarefa, portanto, é descobrir o que o autor inspirado pretendia comunicar aos seus primeiros leitores, antes de aplicar o texto a nós mesmos. Essa postura hermenêutica faz do preterismo a mais exigente e a mais honesta de todas as abordagens proféticas. Ele preserva a integridade das palavras de Cristo e dos apóstolos, sustenta a inspiração das Escrituras e reafirma a credibilidade da fé cristã diante do ceticismo moderno.